O preço do atalho: como os anabolizantes podem afetar o coração

A busca por um corpo mais forte e definido tem levado cada vez mais pessoas, especialmente jovens, a recorrerem aos esteroides anabolizantes. O que muitos enxergam como um caminho rápido para alcançar resultados estéticos desejados pode esconder riscos silenciosos e potencialmente graves para a saúde. Entre os órgãos mais afetados pelo uso de anabolizantes está justamente aquele responsável por manter todo o organismo em funcionamento: o coração.

Anabolizantes - Dr. Renato Lott
Cardiologista da FSFX, Dr. Renato Lott

Os esteroides anabolizantes são substâncias que imitam a ação da testosterona, hormônio produzido naturalmente pelo corpo e que está ligado ao desenvolvimento muscular, à força e à disposição física. O risco surge quando essa substância passa a ser utilizada em doses elevadas, sem uma indicação médica adequada.

Segundo o cardiologista do Hospital Márcio Cunha, Dr. Renato Lott Bezerra, o organismo pode até apresentar sinais iniciais de melhora na performance física, mas internamente o impacto pode ser bastante negativo. “Quando uma pessoa utiliza esse hormônio de forma excessiva, ocorre um efeito desejado que é o aumento da força muscular. A pessoa fica mais ativa, com mais energia. É como se o corpo fosse uma máquina que passa a funcionar com mais potência. No entanto, para que essa máquina funcione mais forte, o motor também precisa trabalhar mais. E o nosso motor é o coração”, explica o médico.

Esse aumento da demanda pode provocar uma sobrecarga importante no sistema cardiovascular. Entre os efeitos observados estão o aumento da pressão arterial e alterações estruturais no coração. “Podemos observar um aumento da espessura do músculo cardíaco. O coração fica maior, mais sobrecarregado. Além disso, ocorre aumento do colesterol, e esse conjunto de fatores pode fazer com que as artérias que levam sangue para o coração comecem a se entupir”, alerta o médico.

As consequências podem ser graves. Infarto, insuficiência cardíaca e até morte estão entre os riscos associados ao uso dessas substâncias. Mesmo quando não ocorre um desfecho fatal, os danos podem comprometer profundamente a qualidade de vida. “O paciente pode apresentar fraqueza, falta de ar excessiva e acabar se afastando das suas capacidades habituais”, acrescenta.

Na prática clínica, casos preocupantes têm sido observados entre pessoas jovens e aparentemente saudáveis. “Percebemos muitos jovens utilizando anabolizantes para fins estéticos, muitas vezes em doses maiores e por períodos prolongados. Mesmo em doses teoricamente baixas e por pouco tempo, já observamos problemas importantes”, afirma.

O perigo é ainda maior porque os efeitos negativos costumam surgir de forma silenciosa. Enquanto o usuário percebe aumento de força e disposição, o coração pode estar sendo progressivamente prejudicado. “O paciente se sente mais forte, com mais energia e bem-estar. Mas, por dentro, o coração vai piorando a função. Quando começam a surgir sintomas como falta de ar, dor no peito ou desmaio, muitas vezes o dano cardíaco já é considerado irreversível”, alerta.

De acordo com o médico, existem situações específicas em que a reposição de testosterona pode ser indicada, mas elas são restritas e exigem avaliação criteriosa. Em homens, a principal condição é o hipogonadismo, doença caracterizada por níveis persistentemente baixos de testosterona associados a sintomas como queda de energia, diminuição da libido, redução de pelos e alterações na função sexual. “É importante lembrar que fatores como obesidade e sedentarismo são causas frequentes de testosterona baixa. Muitas vezes, apenas perder peso e praticar exercícios físicos já fazem com que os níveis hormonais se normalizem, sem necessidade de exposição aos efeitos danosos da testosterona”, ressalta o especialista.

Entre as mulheres, a indicação é ainda mais limitada e pode ser considerada em alguns casos específicos relacionados à redução importante da libido após a menopausa, sempre com muita cautela e acompanhamento rigoroso.

Diante da popularização dessas substâncias e da influência das redes sociais, os especialistas reforçam a necessidade de informação de qualidade e maior conscientização da população. “Vivemos em tempos de muita desinformação, especialmente nas redes sociais. O que vemos é um aumento muito grande do uso de testosterona, principalmente entre jovens, muitas vezes baseado em informações não confiáveis”, afirma.

Para quem busca saúde e qualidade de vida, o caminho continua sendo o mais básico e comprovado. “Saúde é o básico bem-feito. Manter exercício físico regular, incluindo atividades aeróbicas e de resistência, dormir bem, ter alimentação equilibrada e fazer consultas periódicas para avaliação da pressão, colesterol e outros fatores de risco”, orienta.

O alerta final do especialista resume bem o perigo por trás dos chamados “atalhos”. “Muita gente quer resultado rápido e interpreta o aumento de força, energia e bem-estar como sinal de saúde. Mas isso nem sempre é verdade. O que os olhos veem, o coração sente. Muitas vezes os danos são graves e irreversíveis. Por isso, é preciso muito cuidado com esses caminhos fáceis”, conclui Dr. Renato Lott.

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